Durante décadas a letra ‘M’ foi sinónimo de motores de alta cilindrada, sonoridades estridentes e de uma conexão visceral com a estrada. Poderá um BMW elétrico, por mais potente que seja, capturar essa essência? O i4 M60, agora com 601 CV, é o argumento mais convincente da marca bávara!

O mundo dos desportivos está em terapia. A transição para o elétrico está a obrigar a redefinir conceitos sagrados como a resposta do motor, o som ou a sensação de ligeireza. E neste contexto de alguma incerteza, as marcas premium de sempre, como a BMW, perceberam que o futuro passa por injetar adrenalina elétrica nas suas lendas desportivas.
O i4 M60 é a prova: um coupé de quatro portas que leva a alma M à era dos quilowatts, desafiando convenções e prometendo emoção sem emissões. Este novo modelo substitui o bem-sucedido M50 xDrive – o primeiro M elétrico da história da marca, que se tornou no M mais vendido da BMW –, elevando o patamar com mais potência e tecnologia.
A primeira impressão é contraditória: a sua silhueta é inconfundivelmente BMW, elegante e dinâmica, mas carece da agressividade exagerada de um M3. É um lobo com pele de cordeiro, um discreto executivo que esconde uma arma devastadora sob o capô… ou melhor dito, sob o piso. A dupla de motores (um por eixo), passa a debitar 601 CV em vez dos 544 do antecessor.

O peso dos números
Ao volante, essa dualidade intensifica-se. O interior é um reduto de tecnologia e luxo, com o sofisticado ecrã curvo Curved Display de 27,2” – com o mais recente sistema operativo BMW OS 8.5, com gráficos renovados e atalhos mais intuitivos – e materiais de primeira qualidade que coabitam com as habituais características ‘M Sport’, como os estofos em pele Vernasca genuína com costuras azuis (1.350 €) ou os bancos desportivos (1.030 €).
Mas ao pisar o acelerador, a contradição esfuma-se. Os seus 601 CV de potência e os sólidos 795 Nm de binário disponíveis desde o primeiro instante traduzem-se num embalo brutal. Os 3,7 segundos que demora a chegar dos 0 aos 100 km/h (duas décimas menos que o seu antecessor) não são apenas um número; são uma sacudidela silenciosa que esmaga as costas contra o banco.
A tração integral xDrive gere a potência com inteligência, proporcionando uma estabilidade em curva à prova de sobressaltos. E até o som, sintético, mas bem conseguido, acrescenta uma camada teatral à experiência. No entanto, o peso extra da bateria, num conjunto a rondar as 2,3 toneladas, faz-se notar. Em andamento normal é difícil perceber essa circunstância, mas ao subir de ritmo ou a passar por lombas e ondulações da estrada, a carroçaria demora mais tempo para acompanhar o movimento. Embora o chassis (agora beneficiando de barras estabilizadoras específicas) e a direção de relação variável lutem com bravura, em curvas apertadas e sucessivas percebe-se também a inércia.
Nada muito preocupante, porque a dinâmica deste modelo é excelente, tal como a estabilidade e confiança que transmite ao volante, estabelecendo uma melhoria muito percetível face a outros elétricos. Não é a agilidade ligeira de um M3, mas o seu controlo e dinamismo são absolutos.

Tecnologia como consolo
A BMW também compensa as leis da física com um arsenal tecnológico que agora é maioritariamente de série. A suspensão adaptativa M, os discos de travão de maior desempenho e a já mencionada direção de relação variável ajudam a manter a eficácia e o conforto num difícil equilíbrio. Os pneus largos agarram-se ao asfalto e há uma inclinação muito reduzida ao fazer curvas.

A posição de condução também é mais baixa do que seria de esperar num elétrico, o que contribui para toda uma postura mais desportiva. E atrás? Bem, mesmo que não soubesse que o i4 não foi construído sobre uma plataforma concebida exclusivamente para um carro elétrico, poderia adivinhar ao sentar-se nos lugares posteriores, devido ao limitado espaço para as pernas e à presença do túnel de transmissão central que é desnecessário num EV.
Um salto técnico crucial é a adoção de um novo inversor de carbureto de silício (SiC) que aumenta a eficiência geral. É este componente, aliado a uma bateria de iões de lítio com uma capacidade líquida ligeiramente superior (81,2 kWh), que permite ao i4 M60 atingir uma autonomia de 551 km (+ 31 km face ao antecessor).
Este alemão, com médias reais de 17 kWh/100 km (tiremos duas décimas em ambiente urbano e juntamos mais duas em autoestrada), faz pensar que rolando com uma autonomia efetiva, deverá permitir percorrer cerca de 400 km. Mas conduza com o espírito M e verá como esse número se desmorona. É o dilema do elétrico desportivo: desempenho ou alcance.
A sombra do preço
Com um preço perto dos 77.000 €, o i4 M60 situa-se num território muito exclusivo. O equipamento de série é bastante generoso, incluindo muitos componentes técnicos que antes seriam opcionais. Contudo, a BMW, fiel à sua filosofia, mantém um catálogo de opções extenso para quem pretende personalizar ao máximo a sua experiência.
Texto Vítor Mendes Fotos Paulo Calisto
CONCLUSÃO
O i4 M60 é um carro fascinante que coloca mais perguntas do que respostas. Será um verdadeiro M? Se um M for sinónimo de sensações puras, desempenho extremo e uma ligação única à estrada, estamos perante uma versão 2.0 dessa emoção, embora mais digital, mais instantânea e… menos visceral. É um desportivo elétrico brilhantemente executado, provavelmente o melhor na sua categoria em termos de equilíbrio entre luxo, tecnologia e performance. No entanto, está mais próximo do conceito de potente GT elétrico do que de um puro desportivo.

FICHA TÉCNICA
BMW I4 M60 XDRIVE
TIPO DE MOTOR Elétricos (2), síncronos de ímanes permanentes
POTÊNCIA 601 CV (442 kW)
BINÁRIO MÁXIMO 795 Nm
TRANSMISSÃO Integral, caixa de relação única
BATERIA Iões de lítio, 83,9 kWh (81,2 úteis)
AUTONOMIA (WLTP) 551 km
TEMPO DE CARGA 8h50 a 11 kW CA (0-100%)
30 min. a 205 kW CC (10-80%)
V. MÁXIMA 225 km/h
ACELERAÇÃO 3,7 s (0 a 100 km/h)
CONSUMO (WLTP) 16,8 kWh/100 km (misto)
EMISSÕES CO2 (WLTP) 0 g/km
DIMENSÕES (C/L/A) 4.783 / 1.852 / 1.448 mm
PNEUS 245/45 R18
PESO 2.285 kg
BAGAGEIRA 470-1.290 l
PREÇO 77.050 €
GAMA DESDE 57.950 €
I.CIRCULAÇÃO (IUC) 0 €
LANÇAMENTO Julho de 2025


















