Portugal continua a aumentar a circulação rodoviária e o consumo de combustíveis fósseis, agravando a distância face aos objetivos climáticos definidos para 2030.
A conclusão é da associação ambientalista ZERO, que analisou os mais recentes dados do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) e da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), divulgados esta terça-feira, Dia Europeu Sem Carros.
Segundo a análise, apesar do crescimento do número de veículos elétricos em circulação, a sua expressão ainda é insuficiente para compensar o aumento dos quilómetros percorridos nas estradas nacionais. O resultado é um maior consumo de combustíveis e uma trajetória cada vez mais distante das metas de descarbonização assumidas pelo país.
Tráfego aumenta e consumo acompanha
Apesar do aumento dos preços dos combustíveis para máximos históricos, os dados da DGEG revelam que, no ano móvel terminado em julho de 2026, foram consumidas 5,986 milhões de toneladas de combustíveis rodoviários, um aumento de 1,7% face ao período homólogo. O consumo de gasóleo cresceu 0,7%, para 4,532 milhões de toneladas, enquanto a gasolina registou uma subida de 4,7%, totalizando 1,386 milhões de toneladas. Já o GPL avançou 14,3%, para 68 mil toneladas.
A evolução acompanha o aumento da circulação rodoviária. No primeiro semestre de 2026, os veículos percorreram 13,2 mil milhões de veículos-quilómetro nas principais vias monitorizadas pelo IMT, mais 388 milhões do que no mesmo período do ano anterior, o equivalente a um crescimento de 3%.
Para a ZERO, a diferença entre o aumento do tráfego (+3%) e o crescimento do consumo (+1,7%) demonstra que a eletrificação e os ganhos de eficiência energética estão a reduzir parte do impacto, mas ainda longe de inverter a tendência.
Mobilidade continua dependente de combustíveis
Com base em dados da DGEG, IMT e MOBI.E, a ZERO estima que os veículos movidos a combustíveis fósseis percorrem anualmente cerca de 94 mil milhões de quilómetros em Portugal. Em comparação, os veículos 100% elétricos representam apenas cerca de três mil milhões de quilómetros.
Na prática, cerca de 97% da mobilidade rodoviária nacional continua dependente de combustíveis, evidenciando que a transição energética no setor dos transportes ainda está numa fase inicial.
Metas climáticas cada vez mais difíceis de cumprir
A situação levanta preocupações adicionais no plano ambiental. Em 2024, o setor dos transportes foi responsável por emissões de 18,1 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂eq), apenas 9% abaixo dos níveis registados em 2005.
Contudo, o Plano Nacional Energia e Clima (PNEC) estabelece uma redução de 40% até 2030, um objetivo que, segundo a ZERO, está cada vez mais distante.
Aplicando a metodologia da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a associação estima que as emissões rodoviárias se situem atualmente em cerca de 17,4 milhões de toneladas de CO₂eq. Para atingir uma trajetória compatível com os compromissos climáticos nacionais, esse valor teria de descer para aproximadamente 12 milhões de toneladas até ao final da década.
Tal exigiria uma redução média próxima de 9% ao ano, um ritmo muito superior ao observado atualmente.
ZERO pede aposta na mobilidade sustentável
Perante este cenário, a organização defende “um reforço significativo dos transportes públicos, através da criação de corredores BUS, melhor integração tarifária, expansão do transporte a pedido e melhoria das ligações entre diferentes modos de transporte”.
A associação considera igualmente prioritária a eletrificação de frotas com elevada utilização, como táxis, TVDE, empresas de rent-a-car e autocarros turísticos, argumentando que “estas soluções permitem reduzir mais rapidamente o consumo de combustíveis e as emissões”.
A ZERO critica ainda eventuais reduções generalizadas dos impostos sobre os combustíveis. Segundo os seus cálculos, um desconto de dez cêntimos por litro “teria um custo anual próximo dos 730 milhões de euros para o Estado e beneficiaria sobretudo quem mais consome combustível”.
Em alternativa, propõe apoios dirigidos a famílias vulneráveis e investimentos diretos em transportes públicos, logística sustentável e eletrificação de frotas, medidas que considera “mais eficazes para reduzir a dependência do petróleo e aproximar Portugal das metas climáticas para 2030”.
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