Um novo estudo divulgado pela Transport & Environment (T&E) e pela Clean Cities Campaign, organizações das quais a associação ambientalista portuguesa ZERO faz parte, revela uma tendência preocupante: os automóveis vendidos na Europa estão a crescer de forma contínua há mais de duas décadas, com impactos diretos no espaço público, na segurança rodoviária e no consumo energético.
Segundo o relatório, desde o ano 2000 o comprimento médio dos novos automóveis aumenta 1,2 cm por ano, enquanto a altura cresce 0,5 cm anuais. Estudos anteriores já tinham mostrado que a largura e a altura dos capots seguem o mesmo ritmo. Esta evolução contrasta com a redução do tamanho médio dos agregados familiares e com a baixa taxa de ocupação dos veículos.
O estudo projeta que, sem intervenção política, esta tendência continuará até 2040. Em alternativa, apresenta um cenário de “right‑sizing”, no qual políticas públicas incentivam o regresso às dimensões médias de 2015. Para a ZERO, o crescimento atual representa “uma ameaça sem precedentes ao espaço público das cidades europeias”, com efeitos negativos na segurança e no ambiente.
Carros maiores, cidades mais apertadas
Nas cidades europeias, cerca de 50% do espaço público já é ocupado pelo transporte rodoviário. Em Portugal, isso traduz‑se em passeios estreitos, estacionamento ilegal, falta de ciclovias e de faixas BUS, além de pouca arborização — essencial para mitigar ondas de calor.
Com veículos cada vez maiores, a pressão sobre o espaço urbano intensifica‑se. O estudo estima que as cidades europeias poderão perder entre 8,5% e 14% dos lugares de estacionamento em superfície até 2040, caso a tendência se mantenha. Esse espaço perdido poderia ser usado para mobilidade sustentável ou adaptação climática.
Mais vítimas na estrada — e crianças em maior risco
A expansão das dimensões dos automóveis colide com o objetivo europeu Vision Zero, que pretende eliminar mortes na estrada até 2050. O estudo prevê que, no cenário atual, em 2040 haverá mais 400 mortes anuais entre utilizadores vulneráveis — peões, ciclistas e motociclistas — face ao cenário de redimensionamento adequado.
Entre 2026 e 2040, a diferença acumulada poderá atingir 2.500 mortes adicionais de adultos e 79 de crianças. O aumento da altura dos capots é especialmente perigoso para os mais novos, que têm maior probabilidade de serem atingidos na cabeça ou no tórax. O relatório antecipa um aumento de 40% nas mortes de crianças peões até 2040.
Mais energia, mais custos, mais emissões
Veículos maiores consomem mais energia — mesmo quando elétricos. O estudo estima que, até 2040, o crescimento das dimensões dos automóveis resultará num consumo adicional de 116 TWh, com um custo acumulado de 36 mil milhões de euros nas faturas de carregamento das famílias europeias.
Nos veículos com motor de combustão, o impacto também é significativo: a tendência poderá representar mais 100 milhões de barris de petróleo consumidos até 2040, equivalentes a 10 mil milhões de euros.
ZERO pede medidas urgentes
Desta forma a ZERO defende uma intervenção política imediata para inverter a tendência. Entre as propostas a associação ambientalista defende limites máximos para novas homologações: 85 cm de altura do capot e 192 cm de largura a partir de 2033: Reforma fiscal que penalize veículos maiores (ISV, IUC e IVA); Portagens ajustadas à dimensão dos veículos; Tarifas de estacionamento mais elevadas para modelos de grandes dimensões e promoção de elétricos compactos (até 4,2 metros) na revisão das regras europeias de CO2.
Para a ZERO, o redimensionamento dos automóveis é essencial para cidades mais seguras, eficientes e habitáveis.
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