O que eu não vos contei sobre Le Mans? Que, por vezes, os melhores momentos acontecem quando tudo corre mal.
Dizem que Le Mans é a prova mais dura do automobilismo mundial. 24 horas de resistência, velocidade, estratégia e, muitas vezes, de imprevisibilidade. Não sei se um Dakar não será fisicamente mais intenso. Mas o que eu não vos contei sobre Le Mans é que a corrida é apenas a ponta do icebergue. A verdadeira experiência começa muito antes da bandeirada de partida e as memórias mais preciosas são muitas vezes criadas fora da pista, e fazem com que queiramos voltar… sempre?

Este ano, fui convidado pela Peugeot Portugal para viver Le Mans de dentro. Não como espectador, não como jornalista de bancada, mas como alguém que teve o privilégio de atravessar o “cordão de segurança” e pisar o território sagrado onde a história do automóvel se escreve todos os anos.

Da reta de Mulsanne, às curvas de Porsche e a lendária Dunlop… nomes que qualquer entusiasta conhece, compreendem-se verdadeiramente quando se está lá. Depois, claro, há a moldura humana de 350 mil (novo recorde de assistência) e aquele asfalto, que posso jurar que tem alma. No meio de tudo isso, lá estávamos nós, convidados da Peugeot, ombro a ombro com os pilotos nas últimas refeições antes do arranque; tu cá, tu lá com a família Peugeot Sport, desde a hospitalidade às boxes, até ao acesso a zonas que o público comum nunca verá. Estive a poucos metros dos carros, a ouvir os engenheiros a discutir afinações com os pilotos “fora de turno”, e, nos dias antes, a ver os mecânicos a trabalhar.
A corrida, propriamente dita, é intensa, sim. Mas os bastidores são ainda mais fascinantes. As conversas. O nervosismo antes da partida. A cumplicidade entre equipas e pilotos.
Por falar em pilotos, vejo algo que acho que só Le Mans permite: 47 anos separam o estreante Ian Aguilera, o mais jovem de sempre a competir na prova, do veterano canadiano John Farano, que alinha aos 66 anos.
Le Mans é sobre a forma como todos se unem em torno de um objetivo comum, mesmo quando as probabilidades não estão a seu favor.
Quando a noite cai
Especialmente para quem vive as 24 Horas pela primeira vez, estar perto das sessões de treinos livres e de qualificação, ver a corrida sentado na relva com os amigos, andar na roda gigante com a família enquanto os carros passam em velocidade lá em baixo são momentos únicos. Mas arrisco dizer que a maior emoção desponta quando o sol desaparece por trás das bancadas.

Quando a noite cai, o circuito ganha uma nova atmosfera. Música, dança, animação e, este ano, um enorme espetáculo de fogo-de-artifício e drones abriu a “noite” em Le Mans. Sempre com o rugido de fundo dos motores. Por falar neles, que espetáculo de som o dos V12 que equipam os Aston Martin Valkyrie da Aston Martin THOR Team!
Mais sensacional, só talvez o nascer do sol. Este ano, a alvorada aconteceu ao ritmo dos duelos entre a Toyota Racing, a BMW M Team WRT e a Cadillac Hertz Team JOTA, que deixaram tudo em suspenso até aos momentos finais.
O resultado desportivo? Não define a experiência
A Toyota venceu a edição de 2026 das 24 Horas de Le Mans, numa prova em que António Félix da Costa (Alpine) terminou na sexta posição e Filipe Albuquerque (Cadillac) no nono lugar. Os japoneses passam a grande favoritos do WEC 2026, enquanto a Ferrari acendeu o sinal de alerta ao não conseguir qualquer vitória nas três primeiras rondas, num campeonato condicionado pelo BoP…
É verdade que os resultados desportivos para a Peugeot não corresponderam ao que todos esperávamos. O leão deu tudo, mas Le Mans é implacável. E, por vezes, não sorri a quem mais merece.
Ao contrário, a BMW confirmou a boa forma com o segundo lugar em Le Mans, e a Cadillac, apesar de ser a mais rápida em volta lançada, continua a ser penalizada por problemas de fiabilidade que a afastam da vitória.
Mas posso dizer-vos uma coisa se há coisa que Le Mans ensina é que a vitória não é o único motor da paixão. A coragem de competir, a excelência técnica, a entrega de cada elemento da equipa, a comunhão entre marcas e fãs, nada disso não se mede só em voltas ou em pódios.



















