A fraude na quilometragem continua a ser uma das maiores ameaças para quem compra um automóvel usado na Europa. Apesar de a prática ser ilegal e punível por lei em Portugal, a maioria dos consumidores desconhece os mecanismos de proteção existentes e admite não saber como agir caso descubra ter sido vítima deste esquema.
A conclusão surge de um estudo da carVertical, empresa parceira da “Revista Carros”, realizado junto de quase 8.000 condutores europeus, que revela um cenário preocupante: mais de 75% dos inquiridos não sabem onde denunciar um veículo com quilometragem adulterada e 87,3% não acreditam que consigam recuperar o dinheiro perdido caso sejam enganados.

Os números mostram também a dimensão do problema. Cerca de 30,3% dos participantes afirmam já ter comprado um automóvel com quilometragem manipulada ou conhecer alguém que passou pela mesma situação. Outros 31,8% admitem não ter a certeza, o que sugere que muitos casos podem passar despercebidos.
Em Portugal, a realidade está longe de ser irrelevante. De acordo com o Índice de Transparência 2025 da carVertical, 3,78% dos veículos verificados através da plataforma entre setembro de 2024 e agosto de 2025 apresentavam indícios de adulteração da quilometragem. O dado coloca o mercado português na 16.ª posição entre os países analisados.
Mais impressionante do que a incidência da fraude é a sua dimensão. Quando existe manipulação, os conta-quilómetros apresentam, em média, menos 92.900 quilómetros do que aqueles que o veículo realmente percorreu, uma diferença capaz de alterar significativamente o valor comercial do automóvel e mascarar o seu estado de desgaste.
A lei existe, mas poucos a conhecem
Embora a adulteração da quilometragem seja considerada fraude ao abrigo da legislação portuguesa, o estudo revela um profundo desconhecimento por parte dos consumidores.
Mais de 45% dos inquiridos admitem não conhecer as sanções aplicáveis a este crime e 7,1% acreditam mesmo que a manipulação dos quilómetros não é ilegal. Apenas pouco mais de metade dos participantes demonstrou ter uma perceção correta das possíveis consequências legais.
Segundo Matas Buzelis, especialista do mercado automóvel da carVertical, a falta de informação continua a ser uma das principais aliadas dos fraudadores. “Um direito legal só protege os consumidores quando estes sabem que ele existe e como o exercer. Muitos compradores descobrem que foram enganados, mas não sabem a quem recorrer nem que passos devem seguir”, sublinha o especialista.

Veículos importados continuam a ser um desafio
A carVertical alerta ainda para outro obstáculo: a fragmentação dos registos automóveis entre diferentes países europeus. Esta dispersão de informação pode facilitar a circulação de veículos com histórico adulterado, sobretudo quando atravessam fronteiras.
Segundo a empresa, a criação de um sistema europeu mais eficiente de partilha de dados poderá ajudar a reduzir estes riscos, tornando mais fácil rastrear o histórico real de um automóvel ao longo da sua vida útil.
Enquanto isso não acontece, a recomendação mantém-se: verificar o histórico do veículo antes da compra continua a ser uma das formas mais eficazes de evitar prejuízos financeiros e surpresas desagradáveis.
Para quem procura um usado, a mensagem é clara: o estado da carroçaria, a quilometragem apresentada ou um preço aparentemente atrativo podem não contar toda a história. E, num mercado onde quase 93 mil quilómetros podem desaparecer de um conta-quilómetros, a prudência vale ouro.
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