A corrida pela próxima geração de baterias para veículos elétricos tem um vencedor provisório – e é a MG. A marca chinesa de origem britânica acaba de anunciar que será a primeira fabricante do mundo a colocar em produção em série um automóvel equipado com baterias de estado semi-sólido. E fá-lo já no final deste ano, com o MG4 Urban EV a estrear a tecnologia em Portugal e no resto da Europa.
Esta não é, porém, a tão falada bateria de estado totalmente sólido que promete revolucionar o setor com autonomias próximas dos 1.000 km. Essa está ainda no forno. A MG sabe disso e admite que a está a desenvolver, mas, enquanto não chega, aposta numa solução intermédia que promete trazer já benefícios concretos ao utilizador comum.
Afinal, o que torna esta bateria especial?
A nova tecnologia, batizada de MG SolidCore, utiliza um eletrólito que não é nem totalmente líquido nem totalmente sólido – daí o nome semi-sólido. Na prática, combina uma matriz sólida com uma pequena percentagem de componentes líquidos (entre 5% a 10%), resultando numa consistência semelhante a um gel. Esta abordagem permite contornar muitos dos problemas que ainda emperram a produção de baterias 100% sólidas, como a baixa condutividade iónica e as tensões mecânicas nos materiais.
O resultado é uma bateria que, sem exigir uma revolução nas linhas de montagem, oferece melhorias significativas: maior densidade energética, carregamentos mais rápidos, maior estabilidade em temperaturas negativas e menos risco de sobreaquecimento.
A aposta no manganês – e por que isso importa
Enquanto a indústria oscila entre o níquel-cobalto-manganês e as LFP (litio-ferro-fosfato), a MG decidiu privilegiar o manganês como elemento central do cátodo. A escolha não é inocente: este material permite atingir tensões mais elevadas por célula, o que se traduz em mais quilómetros com o mesmo peso. E, como bónus, é mais barato e abundante que o níquel ou o cobalto – uma vantagem competitiva que pode ajudar a baixar o preço final dos veículos.
Para garantir a durabilidade, a MG integrou ainda um sistema de “captura de manganês”, que evita que os iões deste elemento se desprendam durante a utilização e degradem a bateria prematuramente.
Menos frio, mais segurança, menos espera
Um dos trunfos mais práticos desta tecnologia é o comportamento a baixas temperaturas. Ao contrário de muitos elétricos atuais, que perdem desempenho ou exigem longos pré-aquecimentos em dias de inverno, os carros com a nova bateria prometem arranques imediatos e potência estável, mesmo sem aquecimento prévio.
No capítulo da segurança, os eletrólitos semi-sólidos são também menos propensos a reações térmicas descontroladas – o que reduz significativamente o risco de incêndio em caso de acidente ou avaria.

O que significa isto para o condutor em Portugal?
O MG4 Urban EV, com bateria de cerca de 54 kWh, deverá alcançar uma autonomia prática na casa dos 420 km segundo o ciclo europeu WLTP – um valor perfeitamente competitivo para o dia a dia e para viagens mais longas. A MG já está a testar esta solução na China, num SUV compacto, e os resultados preliminares apontam para uma eficiência encorajadora.
A aposta da marca não se fica pela tecnologia. Com a abertura de um novo centro de engenharia em Frankfurt, a MG quer adaptar os seus modelos ao gosto, às estradas e ao clima europeus – com o suporte das equipas de engenharia e design que mantém no Reino Unido.
O caminho para o estado sólido – mas já com um pé no futuro
A MG não esconde que esta é uma solução de transição. A meta final continua a ser a bateria totalmente sólida, com autonomias até 1.000 km, mas essa ainda levará alguns anos a amadurecer. Até lá, a semi-sólida chega como uma ponte credível – e, mais importante, como uma tecnologia que já sai da fábrica, que já se pode comprar e conduzir.

















