O mercado de usados continua a crescer em Portugal, mas nem todos os veículos contam a história que aparentam. Um estudo recente da carVertical, parceiro da Revista Carros, revela que 7,1% dos automóveis verificados no país mostram sinais claros de uso intensivo, um indicador que pode comprometer a fiabilidade e aumentar os custos de manutenção para futuros compradores.
Quando a quilometragem não conta toda a verdade
A quilometragem continua a ser o primeiro critério analisado por quem procura um carro usado. No entanto, especialistas alertam que não basta olhar para o número total de quilómetros, mas sim para a velocidade com que foram acumulados. Veículos que percorrem mais de 36 mil quilómetros por ano — ou cerca de 3 mil por mês — entram na categoria de uso intensivo definida pela carVertical.
Este tipo de utilização é comum em táxis, TVDE, serviços de entregas ou frotas empresariais. A rotina urbana — acelerações constantes, travagens bruscas, paragens prolongadas com o motor ligado e carga frequente — provoca desgaste acelerado em componentes como travões, suspensão, direção, transmissão, interiores e até elementos estruturais.

Peugeot domina a lista dos modelos mais intensivos
Entre os veículos analisados, o Peugeot 5008 lidera com 24,2% dos exemplares acima do limite anual de quilometragem. Seguem‑se o Peugeot 2008 (23,1%), o Peugeot 308 (14,3%), o Mercedes‑Benz Classe C (14,1%) e o Classe E (13,7%).
Modelos populares entre profissionais — pela eficiência, conforto e custos controlados — acabam por chegar ao mercado de usados com um histórico mais exigente do que aparentam.
O perigo dos carros “disfarçados”
Nem sempre é fácil identificar um veículo intensivo. Táxis tradicionais são reconhecíveis, mas muitos carros usados em TVDE, aluguer ou frotas empresariais entram no mercado sem sinais visíveis. Volantes, bancos e pedais podem ser substituídos, mascarando o desgaste real.
“Se um veículo relativamente novo tem uma quilometragem estranhamente elevada, é muito provável que tenha pertencido a uma frota de empresa ou sido utilizado para TVDE, serviços de entregas ou outros serviços. Os compradores não se devem deixar levar por uma aparência cuidada ou apenas pelo preço. É imperativo inspecionar o veículo de forma exaustiva numa oficina, pois pode vir a precisar de reparações custosas a curto prazo”, alerta Matas Buzelis, especialista da carVertical.
Ricardo Silva, da AutoLine, reforça que não é a quilometragem que define o estado do carro, mas sim como esses quilómetros foram feitos. Um veículo com muitos quilómetros feitos em autoestrada pode estar em melhor estado do que outro com metade, mas sujeito a uso urbano agressivo.
“Nem sempre é possível identificar um veículo que sofreu um uso intensivo apenas através de uma inspeção visual. O desgaste do volante, dos bancos, dos pedais ou de outros componentes do habitáculo pode dar algumas pistas, mas muitas destas peças podem ser facilmente substituídas ou renovadas. Por isso, é essencial consultar o histórico de manutenção do veículo, verificar a documentação, realizar um diagnóstico eletrónico e, sempre que possível, pedir a um profissional independente que inspecione a viatura”, salientou Silva.
Importados: o risco invisível
O estudo revela ainda que muitos veículos com histórico de táxi são importados, chegando ao mercado português sem qualquer indicação do seu passado profissional. A falta de partilha de dados entre países deixa os compradores vulneráveis.
“O comércio transfronteiriço dificulta a identificação dos riscos do uso intensivo. Um automóvel pode ter sido usado de forma intensiva num país, aparecendo posteriormente noutro mercado como um veículo usado normal. Uma vez que os dados históricos não viajam com o veículo”, sublinha Buzelis. Sem essa informação, “os comproadorres têm de escolher com base na aparência, no preço e na leitura da quilometragem — o que é insuficiente”, afirma Buzelis.
Nos relatórios da carVertical, os compradores podem consultar a secção de Hábitos de Condução para ficarem a saber em que período o automóvel acumulou a maior parte dos quilómetros e se existiram períodos de uso intensivo inesperados. Este contexto é particularmente importante para veículos importados. Um veículo que aparente estar em excelente estado pode ocultar problemas graves, incluindo adulteração da quilometragem e componentes mecânicos muito desgastados. Em posse de um relatório histórico, os compradores podem comparar diversos veículos e evitar os maus negócios.
Metodologia
O estudo da carVertical analisou relatórios históricos de veículos adquiridos pelos utilizadores da empresa entre janeiro de 2025 e maio de 2026. Os veículos com uso intenso foram agrupados por fabricante e modelo, convertidos em percentagens e classificados em conformidade.
A carVertical é uma empresa de dados que recolhe e padroniza vastas quantidades de dados automóveis oriundos de mais de 1000 fontes globais, incluindo autoridades policiais, registos nacionais e estatais, instituições financeiras e anúncios classificados em 37 países. Estes dados complexos são então transformados em produtos B2B e B2C inovadores e acessíveis, convertendo dados brutos em informações de mercado valiosas, previsões e relatórios abrangentes sobre o histórico dos veículos.
Leia também:
















