Para assinalar o fim da lendária era W16, a Bugatti voltou a unir-se à Königliche Porzellan-Manufaktur Berlin (KPM), a histórica manufatura de porcelana fundada por Frederico II da Prússia. Desta colaboração nasceu o W16 Mistral “Blanc Éternel”, uma peça única que leva o conceito de “one-off” a um território onde a arte manual e a engenharia extrema se encontram.

Tal como acontecera há 15 anos com o icónico L’Or Blanc, inspirado na porcelana e baseado no Veyron Grand Sport, este novo Mistral recupera a mesma filosofia: transformar um su+erdesportivo num objeto artístico. Mas, desta vez, a Bugatti quis ir mais longe. Apesar de o grafismo ter sido concebido digitalmente, a execução é totalmente humana — um regresso ao artesanato puro numa era dominada por modelação virtual.
A carroçaria é primeiro revestida em branco absoluto, criando uma superfície imaculada. Depois, cada linha preta é aplicada manualmente, com fita posicionada ao milímetro. As zonas envolventes são mascaradas, a fita é removida e os canais expostos recebem tinta preta.
O processo exige paciência, precisão e uma leitura instintiva das curvas tridimensionais do Mistral. O resultado é uma composição gráfica intrincada, onde o contraste entre preto e branco parece revelar a própria estrutura digital do carro, como se o desenho virtual tivesse sido impresso na sua pele.

Este jogo visual percorre todos os elementos característicos do W16 Mistral: a grelha em ferradura reinterpretada, o perfil dianteiro esculpido, a ascendente linha C, as entradas de ar monumentais e a assinatura traseira em X. Cada superfície surge simultaneamente artística e técnica, como se o carro exibisse o seu ADN digital com orgulho.
A KPM acrescenta o toque final: detalhes em porcelana pura, aplicados no emblema EB, nas tampas de combustível e óleo, e em duas peças no topo do motor com o cetro real da manufatura. Criar estes elementos exige conhecimento especializado, já que a porcelana encolhe cerca de 17% durante a cozedura. Cada peça tem de ser modelada antecipando essa contração, para encaixar perfeitamente no Mistral.
No interior, o grafismo exterior é transposto para couro branco, num processo totalmente novo desenvolvido pela Bugatti. As linhas são marcadas e mascaradas à mão, antes de receberem tinta preta. A porcelana volta a assumir protagonismo: grelhas de altifalantes, apoios de joelho, conchas da manete, botões dos vidros e aplicações na consola central são todos fabricados em porcelana preciosa. Aqui, o material não é decorativo — é funcional. O condutor toca porcelana verdadeira ao selecionar uma mudança, abrir um vidro ou repousar o braço. É uma experiência sensorial rara num automóvel.

Hipnotizante de observar, o Blanc Éternel destaca-se numa produção já limitada a apenas 99 unidades e representa o derradeiro capítulo dos Bugatti de estrada equipados com o motor W16. Mantém a mecânica brutal: o 8.0 litros W16 com quatro turbocompressores, acoplado a uma caixa DSG de dupla embraiagem com sete velocidades. Os números continuam a desafiar a lógica: 0–100 km/h em 2,4 segundos e 440 km/h de velocidade máxima.
A Bugatti não revelou o preço desta peça única — já vendida — mas recorde-se que o Mistral “de série”, limitado a 99 unidades, começa nos 5 milhões de euros. O Blanc Éternel não é apenas mais um Mistral: é o último suspiro de uma era mecânica irrepetível, transformado numa obra de arte que celebra a beleza da porcelana e a precisão absoluta da engenharia Bugatti.

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