Reportagem na China expõe o mercado negro e lucrativo da reciclagem de baterias. Lucro por unidade atinge 1.220€ e 75% do fluxo desvia-se para oficinas ilegais.
Uma investigação jornalística na China desvendou uma rede subterrânea e altamente rentável dedicada à reutilização e recuperação de baterias de veículos elétricos, onde cada componente é aproveitado.
O verdadeiro desafio dos carros elétricos pode não ser a autonomia ou os tempos de carga, mas sim o seu fim de vida. No coração deste problema está a reciclagem das baterias de lítio. Um complexo industrial em Qingcaowo, na província de Guangdong, é o epicentro de um comércio pouco regulado.
Uma equipa da CBN conseguiu acesso a uma dessas unidades fabris clandestinas. O cenário era revelador: um simples letreiro azul na entrada, sem qualquer identificação da empresa, contrastava com as rigorosas medidas de controlo de acesso, que incluíam registo de todos os movimentos.
O local, composto por seis armazéns com aparência abandonada, albergava mais de uma centena de baterias usadas de marcas como a BYD, CATL, Sunwoda, Guoxuan High-Tech e Zhongchuang Innovation Aviation, aguardando desmontagem com equipamento especializado.
A economia informal das baterias
No interior, uma equipa reduzida de seis operários avalia a qualidade de cada célula de ião-lítio. O processo envolve a sua perfuração, a extração e restauro de componentes reutilizáveis e a coordenação logística com os clientes.
O gestor da operação, que usa o pseudónimo Wu Lei, descreveu um modelo de negócio simples e de elevada rentabilidade. A rede adquire packs de baterias em todo o território chinês, desmonta-os integralmente para recuperar peças e restaura os módulos que apresentam condições para uma segunda vida.
A principal atividade desta unidade é, assim, a revenda de baterias recondicionadas. Quando a reutilização direta não é viável, o foco volta-se para a extração de metais preciosos como lítio, níquel e cobalto, mantendo a lucratividade da operação.
Durante a visita, Wu Lei recebia chamadas a intervalos de dez minutos. As conversas resumiam-se a questões essenciais: marca e capacidade da bateria. Com base nisso, e se o negócio fosse vantajoso, era enviado um serviço de guindaste para a recolher no local indicado.
“Consideramos uma célula de boa qualidade e passível de revenda se mantiver mais de 50% da sua capacidade original”, explicou o responsável pela oficina não autorizada.
O tsunami das baterias usadas
A China, líder global na mobilidade elétrica, confronta-se agora com as consequências da sua própria adoção acelerada. Com uma taxa de penetração de veículos elétricos a rondar os 50%, os primeiros modelos colocados no mercado começam a chegar ao fim da sua vida útil.
De acordo com a Associação Chinesa de Tecnologia de Conservação de Energia Eletrónica, o volume de baterias retiradas de circulação terá ultrapassado as 820 mil toneladas em 2025, apenas no mercado doméstico. A dimensão desta oportunidade económica fez proliferar oficinas de reciclagem ilegais.
As tentativas das autoridades para regulamentar e controlar este sector têm tido um sucesso limitado. Estas microempresas operam de forma quase fantasmal, sem identidade fiscal registada, com equipas mínimas e em locais discretos.
Estima-se que a capacidade de processamento destas oficinas clandestinas atinja os 3,8 milhões de toneladas anuais. Em contrapartida, o volume tratado por operadores oficiais de reciclagem não ultrapassou as 623 mil toneladas em 2025, representando menos de 18% do total.
Este setor informal domina cerca de 75% do mercado de reciclagem de baterias na China. Os lucros são avultados: enquanto a aquisição de um lote de baterias pode custar menos de 600.000 yuan (cerca de 73.000€), as receitas anuais podem ascender a vários milhões.
Wu Lei coordena todo o negócio através do WeChat. “Se for complicado para o cliente remover a bateria, podemos nós próprios rebocar o veículo para uma unidade de desmantelamento. Temos contactos que tratam do processo, pois no final só nos interessam as células”, afirmou, sublinhando a necessidade de agir com rapidez para superar a concorrência.
Fonte: Autobild













