Mark Tapscott, ex-engenheiro da Tesla e cofundador da Longbow, critica o rumo da indústria automóvel e apresenta uma visão radicalmente diferente para os desportivos elétricos.
Há uma tendência na indústria dos veículos elétricos que parece inquestionável: mais é melhor. Mais bateria, mais autonomia, mais ecrãs, mais ajudas à condução, mais peso. Mas um grupo de veteranos da Tesla e da Lucid está a dizer exatamente o contrário. Eles acham que os elétricos estão a fazer tudo errado.
Fundada em 2023 por Daniel Davey e Mark Tapscott, ambos com passagens de destaque pela Tesla e Lucid, a Longbow nasceu de uma frustração comum: ver conceitos promissores transformarem-se em pesos pesados recheados de tecnologia supérflua assim que saem do papel. No final de 2025, Jenny Keisu, antiga CEO da X Shore (especialista em náutica elétrica), juntou-se à equipa de liderança, trazendo uma perspetiva diferente sobre mobilidade sustentável.
Em entrevista exclusiva ao Carscoops, Tapscott explicou porque é que a indústria seguiu o caminho errado e como a Longbow pretende corrigi-lo.
O peso da tecnologia
O problema, explica Tapscott, começa na premissa de que um veículo elétrico tem de ser, acima de tudo, um mostruário tecnológico. “Um grupo motopropulsor elétrico não significa um SUV do segmento D com todas as câmaras extras, peso e tudo o resto”, afirma. “Essas duas coisas são diferentes.”
Para a Longbow, a indústria perdeu-se ao confundir progresso com acumulação. Mais baterias significam mais autonomia, sim, mas também mais peso. E mais peso mata a dinâmica de condução. “Os nossos engenheiros têm duas tarefas diárias”, revela Tapscott. “Todos os dias, precisam de perder pelo menos um grama em tudo o que estão a projetar. E a segunda é que o melhor design que podem fazer é nenhum design de todo.”
Esta filosofia bebe diretamente da escola de Colin Chapman, o lendário fundador da Lotus, que acreditava que “simplificar, depois aligeirar” era o caminho para a performance.
A lição dos fundadores da Tesla
Curiosamente, a validação para esta abordagem veio de uma conversa com um dos cofundadores originais da Tesla (Tapscott não revela qual, mas a empresa foi fundada em 2003 por Martin Eberhard e Marc Tarpenning). “Ele explicou-nos que era exatamente assim que eles queriam construir a Tesla há 15-20 anos”, conta.
Na altura, a cadeia de fornecimento não estava preparada para essa visão. Hoje, está. E é precisamente aí que a Longbow encontra a sua vantagem. Ao contrário da obsessão moderna pela integração vertical (fazer tudo internamente), a marca britânica está a fazer o oposto: aproveita componentes já existentes, comprovados por milhões de quilómetros de uso real, fornecidos por especialistas estabelecidos.
“Há tantos fornecedores a fabricar produtos incríveis que podemos aproveitar”, diz Tapscott. “A indústria está a ajudar-nos naquilo que está a fazer.”
Repensar a bateria desde o primeiro princípio
Um dos exemplos mais claros desta abordagem de “primeiros princípios” está na arquitetura da bateria. Enquanto muitos construtores empilham camadas sobre camadas, a Longbow questionou a necessidade de cada uma delas.
“As células vão para uma caixa. Essa caixa está noutra caixa. E depois vai para o veículo, que é outra caixa”, exemplifica Tapscott. “Então, acabas por ter estas camadas extra de peso e volume desnecessários.”
Ao integrar a estrutura da bateria diretamente no chassis, a Longbow conseguiu uma rigidez “pelo menos duas vezes superior à do chassis da Lotus”, uma referência no mundo dos desportivos leves em alumínio.
O futuro passa pela impressão 3D
Outro vetor de disrupção da Longbow está na produção. A marca está a utilizar fabrico aditivo (impressão 3D) não apenas para protótipos, mas com ambições de o aplicar na produção final.
Isto permite duas coisas. Primeiro, iteração rápida durante o desenvolvimento. Segundo, um modelo de negócio completamente diferente para personalização e assistência pós-venda. Em vez de armazenar painéis de carroçaria em armazéns por todo o mundo, a Longbow imagina um futuro onde esses componentes são impressos localmente, sob demanda.
“Pode-se realmente ter apenas uma impressora que pode imprimir essa peça nesse país imediatamente, sem qualquer demora”, explica Tapscott. “Poderia ser totalmente personalizado para si. Isso é algo que não tem sido tão explorado no setor automóvel de produção.”
E os motores nas rodas?
A presença da Longbow na CES (Consumer Electronics Show) gerou burburinho em torno dos motores nas rodas e uma promessa de 900 cavalos. Tapscott foi rápido a contextualizar: o que foi mostrado foi uma demonstração de conceito, não a especificação final.
O objetivo era mostrar a flexibilidade do chassis. Para a produção, a Longbow vai utilizar um “pequeno motor de relojoeiro, lindamente engenhado” montado no interior do veículo. No entanto, Tapscott não descarta o potencial dos motores nas rodas a longo prazo. “Há trabalho de desenvolvimento a fazer… Acreditamos que definitivamente há um futuro para eles, porque dá muito mais oportunidade dentro do veículo.”
O arqueiro é mais importante que a arma
No final, a mensagem da Longbow é simples: um carro elétrico não tem de ser um eletrodoméstico sobre rodas. Pode e deve ser uma ferramenta precisa e envolvente para o condutor.
Nas palavras de Tapscott, parafraseando o nome da empresa: a arma importa, mas o arqueiro importa mais. Num mercado saturado de SUVs pesados e repletos de ecrãs, a Longbow aposta tudo na leveza, na pureza e na experiência de condução.
Se vão conseguir ou não provar que a indústria está no caminho errado, só o tempo dirá. Mas, para já, a abordagem de cortar na gordura é, sem dúvida, a sua arma mais afiada.
Fonte: Carscoops















