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REPORTAGEM: O mercado dos clássicos arrefece com os maiores desaires de 2026?

A última década pintou um quadro dourado para o mercado de automóveis clássicos. Valores dispararam, recordes sucederam-se e a narrativa era uma só: os clássicos são o ativo seguro que só aprecia. No entanto, os primeiros grandes leilões de 2026 trouxeram uma lufada de ar… gelado! 

A pergunta que paira nos bastidores de Monterey, nos salões de Paris e nas conversas entre colecionadores é se estaremos perante um ajuste saudável ou o princípio do fim da bolha?

Uma análise aos resultados das praças mais prestigiadas – de Scottsdale a Kissimmee, passando por Paris e Londres – revela histórias de quedas dramáticas. Não se trata de roadsters banais, mas de lendas com pedigree, carros que há poucos anos eram consideradas apostas infalíveis. 

Os maiores desaires: Quando até as lendas perdem tração!

Os números falam por si: um raro Dodge Viper SRT/10 Hurst 50th Anniversary (2008), outrora avaliado em mais de 200 mil euros, foi vendido por meros 10.300€ – uma desvalorização catastrófica de 95% que estilhaçou qualquer lógica de mercado. Mas não foi um caso isolado. 

Lendas consagradas viram o seu estatuto abalado: o mítico Shelby Cobra 289 (1964) recuou 38%, e um McLaren MP4-17D (2002), um verdadeiro monoposto de Fórmula 1 vencedor, desvalorizou 42%. Até a elegância britânica não foi poupada, com um Aston Martin DB6 (1966) a perder 43% do seu fulgor e um majestoso Rolls-Royce Phantom II (1929) a ver o seu valor cortado para metade. 

Até as esculturas sobre rodas, como o sublime Alfa Romeo 6C 1750 da Figoni (1932), não escaparam à tendência de correção. Esta sucessão de desaires nas principais praças mundiais é o retrato mais claro de um mercado a reavaliar-se de forma dura e urgente.

Em leilões europeus, a tendência também se faz sentir. Carros dos anos 80 e 90 (Youngtimers) continuam a atrair interesse forte, mas alguns clássicos tradicionais dos anos 50 e 60, sem uma proveniência imaculada ou boa condição, estão a encontrar resistência. Em Portugal, os conhecedores do mercado observam com atenção. “Há uma correção a acontecer nos segmentos mais inflacionados”, comentou à Carros um comerciante de clássicos do Norte do país. “O comprador português e europeu está mais informado e mais cauteloso. Já não compra apenas o modelo, compra a história, a autenticidade e o estado perfeito.”

As grandes causas do arrefecimento:

  1. Correção de Exuberância: Muitos preços atingiram níveis insustentáveis, divorciados da realidade. O mercado está simplesmente a expulsar os especuladores.
  2. Proveniência e Condição: Num mercado saturado, apenas os melhores exemplares, com histórias documentadas e restauros de elite, mantêm ou aumentam valor. Um “bom” clássico já não chega; tem de ser “excecional”.
  3. Mudança Geracional: Os novos colecionadores, muitas vezes mais jovens, têm paixões diferentes. O interesse migra parcialmente para os desportivos dos anos 80-90, hipercarros dos anos 2000 e veículos com relevância cultural pop, em detrimento de alguns clássicos mais tradicionais.
  4. Contexto Macroeconómico: As taxas de juro mais altas e a inflação tornam o capital mais caro e direcionam o dinheiro para outros investimentos, arrefecendo a paixão (e a capacidade) por bens de luxo não essenciais.

Conclusão: Fim da festa ou oportunidade de ouro?

Este não é o fim do mercado dos clássicos. É, isso sim, o fim da irracionalidade. O que estamos a ver é um mercado a amadurecer, a separar o trigo do joio, a recompensar a qualidade objetiva e a punir a mediocridade sobrevalorizada.

Para o colecionador astuto, isto pode ser a melhor notícia dos últimos anos. A correção está a abrir janelas de oportunidade para adquirir automóveis lendários a preços mais racionais. O segredo, como sempre, é a investigação: focar na proveniência, na autenticidade e na condição irrepreensível.

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