Há qualquer coisa de nostálgico em rodar a chave (sim, era à chave) de um Citroën C3 de primeira geração. O som que nos recebe não é o silêncio de um elétrico, nem o sussurro refinado de um gasolina moderno. É uma tradicional “cigarra” ao ralenti, aquele som seco e metálico que, durante anos, foi a banda sonora das frotas de táxis, frotas de empresas e dos condutores que faziam centenas de quilómetros por dia.
Estamos a falar dos motores Diesel de pequena cilindrada. Os “pequenos guerreiros” de 1.4 ou 1.3 litros que, durante as décadas de 2000 e 2010, prometiam o melhor dos dois mundos: o baixo consumo do gasóleo num pacote pequeno e acessível. E, no entanto, desapareceram. Hoje, é quase impossível comprar um carro novo em Portugal com um motor destes.
Porquê?
O Problema de Ser Pequeno (e Pesado)
Mas se eram tão económicos, porque é que os construtores os abandonaram? A resposta curta é: a física e a economia não perdoam.
Ao contrário dos motores a gasolina, um Diesel tem de ser construído como um tanque de guerra. Para suportar relações de compressão que podem chegar aos 25:1 (contra 11:1 de um gasolina), os blocos têm paredes mais grossas, os pistões são reforçados, e o peso dispara.
Resultado: um motor 1.4 HDi pesava tanto ou mais do que um motor a gasolina de 1.8 ou 2.0 litros. Num carro pequeno, como um C3 ou um Punto, esse peso extra é um lastro. Prejudica a dinâmica, o comportamento e, ironicamente, aumenta o consumo em cidade.
A isto soma-se a vibração. A alta compressão gera forças internas que fazem tremer o motor. Em carros maiores, a estrutura do chassis absorve isso. Num utilitário leve, a vibração passa para o habitáculo, para o volante e para os bancos. Os engenheiros tentaram combater isto com mais borracha, mais isolamento e mais massa, o que nos leva de volta ao problema do peso. Era um círculo vicioso.
O Diesel Ficou Caro (e Sujo)
No entanto, o que realmente matou estes pequenos guerreiros foi a legislação. As normativas Euro e os sistemas anti-poluição, mas convém perceber o impacto prático.
Com a chegada das normas Euro 5 e Euro 6, um motor Diesel pequeno precisava de:
-Filtro de Partículas (DPF): Para reter o fumo negro. Num motor pequeno, que muitas vezes não aquecia o suficiente em percursos curtos, o filtro ficava entupido.
-AdBlue e SCR: Para reduzir os óxidos de azoto (NOx). Isto adicionou um depósito, uma centralina e injetores extra.
-EGR (Recirculação de Gases): Para arrefecer a combustão, mas que enchia o motor de carbonização.
Num carro de segmento B, como um Clio ou um Corsa, onde cada centímetro e cada cêntimo contam, encaixar toda esta tecnologia era um pesadelo. O preço do carro disparava, e a complexidade aumentava o risco de avarias. Um Fiat Punto 1.3 JTD ficava tão caro como um carro do segmento superior.
Ao mesmo tempo, surgiu um rival imbatível: o motor a gasolina turbo de pequena cilindrada (1.0 TSI, 1.2 PureTech) e os híbridos. Estes motores são mais leves, mais suaves, mais baratos de fabricar, e cumprem as normas com muito menos parafernália.
