O CEO da Mercedes‑Benz, Ola Källenius, lançou um sério aviso a Bruxelas: a proposta da União Europeia (UE) para reformular as normas de emissões pode desestabilizar o mercado automóvel europeu e, na prática, transformar‑se numa proibição total dos motores de combustão interna já em 2035.
O líder da marca alemã, que também preside à Associação de Construtores Automóveis Europeus (ACEA), intensificou as críticas ao chamado “pacote automotivo”, juntando‑se ao coro crescente de fabricantes que contestam a direção tomada pelos reguladores.
A polémica centra‑se numa proposta preliminar da Comissão Europeia, datada de 16 de dezembro de 2025, que ajusta a eliminação progressiva dos motores de combustão. Em vez de exigir que 100% dos novos carros vendidos em 2035 sejam de emissões zero, Bruxelas propõe que 90% da frota nova cumpra esse critério, permitindo compensar os restantes 10% através de mecanismos específicos.
Mas, para Källenius, esta flexibilidade é ilusória. “Noventa por cento não pode ser um 100 por cento oculto”, afirmou em Bruxelas, citado pela “Automobilwoche“. O executivo critica sobretudo o sistema de compensações previsto: 7% através de aço de baixo teor de CO2 e 3% via combustíveis sintéticos. Na sua visão, estas metas são irrealistas e acabam por equivaler a uma neutralidade total obrigatória.
Em alternativa, o CEO da Mercedes defende que a UE deveria olhar para a frota já existente — cerca de 250 milhões de veículos ainda em circulação. Um aumento modesto na utilização de e‑combustíveis nesses automóveis teria, segundo ele, um impacto climático imediato e significativo. Källenius sublinha que não está em causa a descarbonização, mas sim o caminho escolhido: “Não estamos a debater se devemos descarbonizar e avançar para a eletromobilidade. Queremos debater como — e isso é crucial.”
O líder da ACEA pede também mais tempo para cumprir as metas de CO2. A Comissão já tinha alargado o prazo até ao final de 2027, mas Källenius defende uma extensão adicional de cinco anos, alegando que a indústria precisa de previsibilidade e realismo.
O executivo critica ainda as premissas técnicas das compensações, afirmando conhecer bem o mercado de aço verde e classificando as exigências como “irrealistas”. Caso a regulamentação avance sem alterações, teme um colapso no mercado de carros novos, resultado de metas que, na sua opinião, perderam o equilíbrio entre ambição climática e viabilidade económica.
Apesar das críticas, Källenius acolhe positivamente a iniciativa “Made in Europe”, destinada a reforçar o investimento industrial no continente. No entanto, considera que a proposta apresentada a 4 de março é tão complexa que a ACEA ainda não consegue emitir uma avaliação definitiva.
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